quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Paris - França

(Publicado em maio de 2002)

Pelas ruas de Paris
Depois de comprar um pacote por 109 libras em Londres, segui para Waterloo, a estação de onde partem os trens Euro Star. Confesso que a idéia de atravessar de trem por baixo do Canal da Mancha não era tão excitante quanto parecia. Se eu não conhecesse ninguém que tivesse feito a viagem antes, acho que teria desistido. Apenas me lembrei do percurso que costumava fazer pelo túnel Ayrton Senna, aquele que passa por baixo do Rio Pinheiros. Com a idéia de que tudo iria dar certo, embarquei.

Não sei por que diabos o meu bilhete apenas de ida estava marcando “Primeira Classe”. Achei que havia sido engano, uma vez que paguei 109 libras pela passagem de ida e volta, incluindo duas noites de hotel. (Se comprado diretamente no guichê da empresa, o bilhete standard sairia por 80 libras.) Quando dei de cara com o local que eu iria me sentar e que no cardápio não estavam os preços, caí na real: estava mesmo na primeira classe do Euro Star indo a Paris.

As poltronas deste vagão são largas e há uma mesa fixa entre uma e outra. Na mesa do lado, havia um casal de ingleses que deveria ir a Paris a negócios e não parava de falar ao celular.

Logo no início da viagem a comissária trouxe algo para beliscar e, depois, uma espécie de refeição. Às nove horas da manhã, depois de ter tomado um café reforçado, não tinha vontade de comer nada. De repente, o maquinista começou a falar. Ele falava inglês como falava francês. O que ele queria dizer, na verdade, era que, naquele momento, estávamos passando pelo Canal da Mancha. Quer saber? Foi mais empolgante do que eu pensava!

“Bonjour, madame!”
Ao desembarcar na estação Gare du Nord, andei até o hotel, que ficava a dez minutos dali. Mostrei o voucher impresso pela internet à recepcionista e tomei posse do quarto 312. Até que bem bonitinho por seu custo: 29 libras por duas noites e café da manhã. Saí em seguida e fui conferir se realmente estava em Paris.

Eu só tive a prova quando dei de cara com a Torre Eiffel. Puxa, ela era, de longe, mais bonita ao vivo do que pela televisão. Ao me aproximar da torre, porém, Paris foi perdendo o encanto e a cidade não era mais tudo aquilo que as pessoas falavam. Não sei se foi porque eu estava vindo de Londres e esta cidade se mostrou deslumbrante e muito organizada, mas, em um primeiro momento, a capital francesa me decepcionou.

O metrô de Londres é muito mais limpo e organizado do que o de Paris. O povo do lado de lá respeita os pedestres, ao contrário desses que dirigem Peugeot e Renault. Se eu não corresse para atravessar a rua, certamente iria usar o meu seguro-viagem para consertar o estrago.

Ao redor da Torre Eiffel os jardins estavam sujos, mal-cuidados, cheios de areia e caca de cachorro. Ainda em manutenção, as redes verdes de proteção em volta do monumento enfeiavam a sua bela arquitetura dourada.

Do alto de seus 276 metros (é preciso pagar 9,90 euros) é possível observar toda a cidade e, inclusive, localizar os principais pontos turísticos. No primeiro andar, a 57 metros, há um cinema que conta a história da torre. No segundo pavimento, onde está a loja de souvenir, é preciso trocar de elevador para chegar ao ponto final. Uau! O frio é bastante no alto, mas a vista compensa!

Andei até o Arco do Triunfo. Aliás, o melhor programa em Paris é caminhar. Antes de perceber uma passagem secreta, tentei atravessar a rua para admirar o Arco bem de perto. Como ele fica no centro da avenida, há carros andando em círculo, de maneira que atravessar a rua é tarefa praticamente impossível. Bem, mas para evitar acidentes, uma vez que os motoristas não param nem quando o sinal está vermelho, há uma passagem por baixo da terra que leva até o Arco. Ah!

Alô, Brasil!
Tarefa difícil mesmo é conseguir um cyber café para mandar notícias, já que eu não sabia como ligar a cobrar para o Brasil. Fui até o mercadinho mais próximo do hotel comprar um cartão telefônico que custou sete euros. Mas o vendedor não falava inglês e tudo o que eu sabia em francês até então era "Je ne sais pas parle français". Fui salva, afinal, por uma moça que fez a tradução simultânea.

Os franceses (os europeus, de maneira geral, que fazem parte da Comunidade Européia e aderiram ao Euro) ainda estavam confusos com a troca do Franco pelo Euro, por isso os preços eram sempre apresentados nas duas moedas.

Realmente haviam me dito que os franceses não falam inglês. Eles têm uma resistência enorme para com o idioma universal. Uma prova disso é a oposição a se informatizar. A Fnac de lá, por exemplo, não tem um cyber café como nós temos na Pedroso de Morais. Quando pedi informação ao vendedor, ele apenas soube me dizer que a loja de internet que existia na redondeza havia sido fechada para sempre.

Mas, ainda bem, havia um escritório de informações turísticas logo em frente, do outro lado da avenida des Champs-Elysées. Com toda a simpatia que lhe cabia, a francesa me indicou um que estava funcionando em uma loja da Toyota.

Cheguei lá e perguntei para a funcionária, que também falava inglês, como funcionava. Ela me disse que era um serviço gratuito e, por isso, poderia ficar 15 minutos on-line. Quando ela me perguntou o meu nome para me colocar na lista de espera, veio a confirmação: “Você é brasileira, não?”, indagou a moça deste jeito, em português. “Sim, Carla”, respondi olhando para o seu crachá.

Carla mora em Paris há 11 anos e afirma visitar os parentes pelo menos uma vez por ano. Foi depois desta conversa que consegui ficar meia hora na Internet. De graça.

Após este episódio, porém, só tive mais um problema com a língua. Quando fui pedir informação a uma jovem que passava pela rua, ela me disse que não sabia falar inglês direito. Em todo caso, como eu apenas queria saber onde estava a estação de metrô mais próxima, foi fácil.

Explorando os cafés
Descer os Champs-Elysées comendo Malteseurs ou um Kit Kat enquanto se admira as vitrines é um dos melhores programas. Para tomar um café, entre em qualquer cafeteria, mas aproveite para sentar na janela. Assim, além de saborear um delicioso café parisiense acompanhado por um croissant recheado de chocolate, observe o movimento da rua e também o vaivém dos elegantes parisienses.

Continue o trajeto por esta larga avenida e, ao avistar a Sephora, não hesite: entre correndo. A megaloja oferece o melhor de todas as marcas de perfume, maquiagem e produtos de beleza de maneira geral. A revista Elle inglesa, aliás, indica a Sephora para os seus leitores que queiram dar um passeio e aproveitar os bons preços dos cosméticos.

Com uma sacola em punho (não se esqueça de pedir a isenção do imposto, uma vez que os cidadãos que não moram na Comunidade Européia não precisam contribuir quando gastam mais do que 140 euros na mesma compra), vá a uma loja Häagen-Dazs e compre um sorvete por 1,98 euro.

Evite chegar desavisado à cidade que inventou o impressionismo, a alta-costura, a arrogância e o mau humor. A prova desta última característica é obtida tão logo você entra em algum café ou peça informação começando pela frase: “Do you speak english?”.

Na outra ponta dos Champs-Elysées está o Museu do Louvre. Antes de se tornar o maior museu do mundo, este era o maior palácio real da Europa. Cuidado, porque ele não abre às terças. Cada ingresso custa 7,50 euros, sendo que após às 15h o preço cai para cinco euros. Prepare-se para andar como um louco e não se esqueça de pegar um mapa para conferir as principais obras, porque, com certeza, visitar o Louvre de cabo a rabo em um único dia é tarefa impossível.

A pirâmide de vidro em frente ao museu é, hoje, sua porta de entrada. Ela faz parte dos primeiros planos para a modernização e expansão do Louvre idealizados em 1981. Feita de metal e vidro, a pirâmide permite que o visitante veja os edifícios ao redor do palácio, além de iluminar a área de recepção no subsolo.

O Louvre é a casa da Mona Lisa, obra de Leonardo da Vinci. Muito fotografada por visitantes do mundo inteiro, ela fica exposta em uma redoma e cercada por cordas.

Ao sair do Louvre, siga caminhando pelo Jardin des Tuileries e observe como as pessoas ficam “largadas” ao redor do lago observando os patos nadarem enquanto deliciam uma baguete, um crepe ou simplesmente colocam as pernas para o ar.

Logo adiante está a Place de la Concorde, a mais importante da história francesa, onde o rei Luis XV foi guilhotinado durante a revolução.

Do outro lado do Sena está o Musée d’Orsay, instalado em uma antiga estação de trem. O museu vale a visita, uma vez que ele abriga a principal coleção de arte impressionista de Paris. Claude Monet, um dos principais representantes deste movimento, possui obras maravilhosas expostas. Outro local onde podem ser encontradas suas obras é na Fundação Monet, em Giverny, cidade que serviu de inspiração e onde o artista morou antes de falecer.

Entre museus e catedrais
Além de museus, Paris possui muitas catedrais a serem visitadas. A Basílica Sacre-Coeur, por exemplo, está no alto de uma montanha. Opte pelas escadarias somente se você estiver pagando os pecados. Caso contrário, pague um euro e vá de bondinho. A riqueza de detalhes da fachada já impressiona. Sente nas escadarias e observe os músicos que fazem ponto por ali.

Já em Ile de la Cité, local onde Paris nasceu, está a Catedral de Notre-Dame, exemplo de arquitetura gótica. Ela começou a ser construída em 1163 e a obra demorou dois séculos para ser concluída. A região é, notoriamente, um dos maiores centros mundiais de tráfico de souvenir.

Na entrada da igreja há inúmeros mendigos suplicando uma ajuda para comer. E, se algum albanês lhe perguntar se você fala inglês, tome cuidado. Na verdade o cidadão estrangeiro está apenas querendo lhe entregar um papel solicitando ajuda para a compra de uma passagem de volta para a terra natal. Na primeira eu caí. Depois, virei craque em dizer que não falo inglês.

Se não fossem os perfumes e os cosméticos em geral, poderia dizer que Paris é tão cara quanto Londres, a ponto de uma garrafa d’água custar mais cara do que um cálice de vinho. Tudo bem que se trata de Evian ou Perrier.

Como caminhar é a melhor pedida da capital francesa, o melhor programa, sem dúvida, é explorar os cafés e bistrôs. Os artistas de rua em Montmarte costumam expor seus trabalhos em tela. Talvez do mesmo modo como Monet começou para ganhar uns francos e pagar o curso de pintura.

As Galeries Lafayette estão para Paris assim como a Harrods está para Londres, com uma diferença básica: os preços da galeria são mais acessíveis do que os da centenária megastore do outro lado do Canal da Mancha.

Depois de vencer toda aquela frescura, biquinho pra isso, biquinho praquilo, mulheres com ar permanentemente blasé e, ainda por cima, tantos braços por depilar, foi chegando a hora de voltar para Londres de segunda classe, cujos preços estavam no cardápio e as poltronas eram estreitas e muito apertadas. A sorte é que naquela quarta-feira o vagão estava vazio e pude me esparramar em duas.

No final das contas, Paris começou a me convencer que ainda tenho motivos para voltar. Os cafés art-nouveau, as margens e as pontes do Sena, o croissant, o vinho, as galerias de arte, a moda, o cheiro de perfume, a resistência à invasão da língua inglesa, a pirâmide de vidro do Louvre, os jardins. Au revoir!

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